O estado da Califórnia move ação contra e invade clube do cru “clandestino”

por Dana Goodyear

Tradução do artigo “Raw Deal” (Trem do Cru)

The New Yorker, 30 de abril de 2012

O estado da Califórnia move ação contra e invade clube do cru “clandestino

Mesmo antes de James Stewart, líder da gangue de traficantes de leite conhecida por Rawesome Three (Trio do Cru), contratar um advogado de um dos melhores escritórios de defesa da maconha em Los Angeles, a analogia já se fazia clara: o leite cru tornou-se a nova maconha, só que mais difícil de obter. Por mais de um ano, Rawesome, um clube de alimentos exclusivo para membros que Stuart dirigia em um local em Venice, Califórnia, tornou-se alvo de uma investigação comandada por nove agências cujos agentes secretos se infiltraram na rede de fornecedores de leite para o clube. Os operadores, inclusive o temido investigador do Departamento de Agricultura da Califórnia, Scarlett Treviso (nome de código La Rue), misturaram-se com clientes e, usando o que o advogado de Stewart disse serem “câmeras de bolso e câmeras instaladas em postes”, fotografaram o trailer refrigerado de Rawesome, e a feira de produtos ao ar livre. Também tiraram fotos da rua: membros passando por um portão enorme de metal com uma placa com os dizeres “Rawesome Foods— cru e orgânico— fora do ordinário e simplesmente extraordinário”.

Rawesome, uma loja de especialidades cara, que aceita somente pagamento à vista e em dinheiro, dedicada à comercialização de alimentos radicalmente naturais, não processados, atraía uma clientela de aficionados da saúde, yogis, celebridades e pessoas com enfermidades graves. Na loja Rawesome, eles podiam adquirir produtos em geral inacessíveis: mel natural (não aquecido) dos altiplanos  bolivianos; caju de Bali secado ao sol; colostro cru de vaca, coalho de cabra e leite de camelo, de um fornecedor que vendia os produtos para “uso artesanal”.  No refrigerador de carne, havia rins de bisão, baço, corações, e testículos, que os clientes muitas vezes cortavam e comiam no local.  “Passavam uns verdadeiros vampiros por lá”, disse um ex-empregado da Rawesome, que morou por um tempo num contêiner adaptado para moradia na propriedade. “Todos queriam mamar no úbere da vaca.” Liv Tyler e Mandy Morre faziam compras ali ocasionalmente. Muriel Hemingway era cliente regular, assim como Peta Wilson e Vincent Gallo. Fred Segal, dono de butique, fazia pedido de uma caixa de alimentos toda semana, e o chef pessoal de John Cusack, segundo trabalhadores da Rawesome, não tinha permissão para comprar em  nenhuma outra loja.

Na manhã de 3 de agosto, enquanto um dos extratores de água de coco—conhecidos na Rawesome pelo ar meio vidrado e jeito não social de usar máscaras de lama em público—começou a extrair o suprimento do dia, ouviu-se batidas no portão. Do lado de fora, mais de uma dúzia de agentes da F.D.A. (Administração Regulamentar de Alimentos e Medicamentos), dos departamentos de saúde e fiscal, estavam postados, usando roupa especial de proteção e sob a segurança de agentes armados do Departamento de Polícia de Los Angeles. Stewart, robusto, de 64 anos, bigodinho de praieiro e camisa colorida do Havaí, foi detido e algemado. Tinha nove  mil dólares nos bolsos, pois planejava ir ao centro da cidade para pegar mercadorias. O dinheiro das frutas foi usado como evidência criminal. Durante as horas seguintes, uma multidão de cerca de cem membros do Rawesome Club assistia enquanto agentes carregavam um caminhão de produtos. Quando os agentes despejaram cerca de oitocentos galões (3.030 litros) de leite cru pelo ralo da cozinha, os membros choraram.

No mesmo dia, a polícia prendeu o restante do Trio Rawesome. Em Santa Paula, 100km de distância, baixaram na Healthy Family Farms, uma pequena operação que supria o clube com aves, ovos e, por um tempo, produtos crus de cabra de um rebanho de 40 cabeças que Rawesome alojava ali. A fazendeira Sharon Palmer, mãe solteira que toca a fazenda com seus três filhos adolescentes, foi presa.  A designer gráfica de 59 anos Eugenie Victoria Bloch, membro do Rawesome que ajudava a vender os produtos de Palmer nas feiras de produtores, foi também presa perto de sua casa em Los Angeles. Stewart, Palmer e Bloch foram acusados de crimes de conspiração; Stewart e Palmer foram ainda acusados de dois crimes adicionais, de administrar uma fábrica de leite não licenciada e processar produtos de leite não pasteurizados, além de várias más condutas, inclusive falta de higiene e rotulação imprópria (Todos os três declaram-se inocentes diante de todas as acusações). A fiança para soltar Stewart foi de 123 mil dólares, com a condição, comum em casos de drogas, que permanecesse preso até que o tribunal assegurasse que a fiança não fosse “obtida de forma criminosa” – alto risco para um dono de mercado.

Numa audiência em outubro, 30 apoiadores usando camisetas brancas com “RAW MILK HEALS” (O LEITE CRU CURA) se reuniram do lado de fora do tribunal. Muitos estavam abismados com o que havia acontecido ao mercado da vizinhança.  “Rawesome era um ecossistema inteligente de produtos locais. Vivaz e regulamentado para atender a requisitos alimentares que vão além do que a U.S.D.A. ou F.D.A. entendem por “segurança alimentar”, disse Camilla Griggers, que ensina Inglês numa faculdade nas proximidades. “Que seríamos indiciados pelo sistema legal no assunto segurança alimentar é risível. Rawesome era um clube gourmet por excelência, da melhor comida que podia ser encontrada no mundo”.

Leite cru mexe com o hedonismo de entusiastas de alimentos de modo especial. Por não ser aquecido ou homogeneizado e geralmente vir de animais alimentados em pastagens, tende a ser mais rico e mais doce, e, às vezes, retém um leve aroma do campo—o sabor um tanto desconcertante do que os peritos chamam de “traseiro de vaca”. “A pasteurização elimina camadas de complexidades, camadas de aromas”, disse Daniel Patterson, chef que usou leite cru para fazer torta de creme e sorvete sem ovos no Coi, seu restaurante de 2 estrelas Michelin em São Francisco. “Agora, no início da primavera, o leite está mais doce. As vacas recebem muitas ervas novas, verdejantes, e o leite tem um conteúdo de gordura maior”.  Outro chef respeitado na Califórnia, que usa creme cru para fazer manteiga, sorvete e cajeta, que ele descreve como “de assombrar”, me disse: “O leite é o indicador de terroir mais delicado e sensível que já encontrei. Quando você pega o leite ou creme e pasteuriza e homogeneiza, você matou a originalidade”.  Ele ajudou um fazendeiro vizinho a comprar três vacas (de uma raça cuidadosamente selecionada pela qualidade do leite) e adquire seu leite  do pequeno rebanho pelo sistema de cotas, em que consumidores são donos de uma porcentagem de um rebanho e têm direito a uma certa quantia do leite produzido. O chef disse que o fazendeiro insistia em ser pago  em dinheiro, sem deixar rastros das negociações em papel. “Só recentemente permitiram recibos para eu passar para meu contador, mas mesmo assim não dizemos para o que é”, ele me disse. “Chamamos ‘serviços de vacas’.”

A nova moda de cuisine de requinte americana tem um lado forte de nostalgia por um passado imaginado. Com todas suas variações, esta cozinha progressista é essencialmente um ato de recuperação. Patterson, formado em cozinha e forrageador, me disse, “Fazemos um grande esforço no Coi para parecer que não estamos fazendo esforço nenhum”.  Para chefs como ele, o leite não processado não só tem gosto melhor, é sentimental e, mais importante, é puro. “O leite cru é um marco fundamental do tipo e estilo antigo da vida no campo”, disse Patterson.

As suspeitas levantadas quanto aos efeitos da tecnologia há tempo se associam com o movimento de leite cru. Nos anos 30, um dentista de Cleveland chamado Weston A. Price viajou pelo mundo estudando populações isoladas que passavam  pela primeira experiência de exposição ao  “deslocamento de alimentos do comércio moderno”. Em “Nutrition and Physical Degeneration” (Nutrição e degeneração física), que se tornou texto chave do movimento, ele escreveu que as pessoas que comiam alimentos não processados, locais, tinham dentes fortes, estrutura óssea regular, e boa saúde geral, enquanto que os que adotaram uma dieta americana—açúcar refinado, farinha branca, leite pasteurizado e sem creme, e óleos hidrogenados—tinham cáries, deformidades faciais e outros problemas, que passavam para os filhos.

Entusiastas do leite cru garantem que a pasteurização mata enzimas que tornam o alimento digestível, assim como as bactérias que contribuem para um sistema de imunidade saudável. Tomar leite cru, dizem, traz numerosos benefícios à saúde—vitalidade, vigor digestivo, dentes fortes, pele saudável—e ainda tem o poder de tratar enfermidades graves, como diabete, câncer e autismo. Sally Fallon Morell, fundadora de um grupo de interesse guiado pelo trabalho de Price, recomenda alimentação de leite cru para crianças. Carola Caldwell, enfermeira registrada que dirigia várias horas de Lake Arrowhead para fazer compras na Rawesome, deu a volta  por cima de anos de treinamento médico para alimentar seu filho com leite e carne crua. Ela me disse que a dieta o curou de alergias terríveis, sensibilidade, química e temperamento ocioso. “Dentro de três semanas do início da alimentação crua, tornou-se uma criança diferente”, ela disse.

Há ainda poucos dados científicos para substanciar as afirmações. O mais próximo a um banco de dados objetivo apareceu em agosto passado com a publicação de um estudo significativo, do “leite de fazenda” ligado a taxas reduzidas de asma e alergias. Os pesquisadores, baseados na Europa, onde o leite cru é mais amplamente aceito, determinou que a proteína de soro era o elemento protetor, mas não chegaram a aconselhar as pessoas a tomar leite cru, devido ao risco de agentes patogênicos. O próximo passo, escreveram, seria desenvolver “meios de processar e preservar um leite seguro e preventivo”.

O leite–rico em proteína, baixo em ácido– é um dos melhores meios de crescimento no planeta. As bactérias o amam. O leite não pasteurizado pode carregar salmonela, campylobacter e E. coli O157:47, a estirpe que chamou a atenção do público nos anos 90 quando quatro crianças morreram após comer carne contaminada no Jack in the Box. A listeria foi traçada a queijos tipo fresco de leite cru, por vezes conhecidos como “queijo de banheira”, referência a métodos caseiros pouco sanitários. Um estudo publicado pelo C.D.C (Centro de Controle de Doenças) em fevereiro descobriu que os agentes patogênicos do leite cru podem ser especialmente danosos para crianças e outros com sistemas de imunidade fracos; nas sessenta epidemias por produtos lácteos crus entre 1993 e 2006 nas quais as idades das vítimas eram conhecidas, dois terços tinham menos do que vinte anos. Apenas uma pequena fração da população—entre um e três por cento—bebe leite cru, e menos do que duzentos casos de doenças transmitidas por alimentos são atribuídos ao leite cru a cada ano. Mas a sua clientela está aumentando, o que é uma grande preocupação para os reguladores. O estudo C.D.C informou que lácteos crus têm cento e cinquenta vezes mais chance do que produtos pasteurizados de causar uma epidemia.

A pasteurização foi introduzida à indústria leiteira americana para resolver uma crise. Até meados do século dezenove, a maior parte do leite disponível nas cidades era suprida por “swill dairies”: currais construidos próximos a destilarias, onde as vacas eram alimentadas com as sobras de grãos moídos na produção de uisque. Os grãos processados aumentavam a produção de leite temporariamente, mas deixavam as vacas—confinadas em estábulos sujos e superlotados—malnutridas e propensas a doenças. Em 1958, o Times publicou um editorial intitulado “Como envenenamos nossas crianças”,  denunciando “o composto branco azulado,  de leite puro, pus e água suja” e culpando leite “swill“ pela morte de oito mil crianças na cidade no ano anterior. Quatro anos depois, Louis Pasteur apareceu com um tratamento por aquecimento para matar as bactérias no vinho, e seu método foi logo aplicado ao leite. Quando Thathm Straus, co-dono da Macy’s, montou depósitos onde famílias pobres pudessem adquirir leite pasteurizado a preços de desconto, o número de bebês que morriam na cidade de Nova York diminuiu acentuadamente.

O que começou como argumento a favor do tratamento de leite produzido sob péssimas condições sanitárias tornou-se argumento para o tratamento de todo leite. Falando no Instituto Pasteur em 1905, o diretor dos depósitos leu uma declaração de Strauss dizendo, “É o leite—leite cru, leite doentio—o responsável pela maior porcentagem de enfermidades no mundo. Afirmo que a única regra segura é—pasteurizar toda a produção de leite e tornar isto responsabilidade do município”. A venda de leite cru é agora ilegal em onze estados e permitida em poucos outros somente pelo sistema de cotas,  e vendas diretas nas fazendas; em quatro estados, pode ser vendido apenas como alimento animal. Desde 1987, quando o grupo de pesquisas Public Citizen (Cidadão Público) de Ralph Nader moveu ação contra o Departamento de Serviços de Saúde Pública para proibir o comércio de leite cru interestadual, virou crime transportar leite cru para vendas entre estados. O mercado paralelo resultante não é, claro, regulamentado, o que faz com que consumidores tenham que levar na fé que o leite está em boas condições, algo que, sem testar, até mesmo o produtor não pode saber com segurança. Bons padrões de inspeção e rotulação adequada podem reduzir significativamente a probabilidade de epidemias, mas por ora os dois lados—os que pedem acesso sem restrições e os que se opõe totalmente a isto—estão num impasse. “A conversa precisa começar a partir de fatos concretos sobre a incidência de bactérias no leite cru”,  diz Jo Robinson, jornalista investigativo que chefia o Web site Eat Wild (Coma Selvagem). “Não estamos fazendo o suficiente para diminuir os riscos”.

O leite cru foi sempre legalizado na Califórnia, mas a preponderância de regulamentos tornou o produto difícil de encontrar. Nos finais dos anos 90, pouco depois de James Stewart começar a vender leite cru, o maior provedor do estado fechou sua operação de leite cru, deixando, de acordo com Stewart, oito vacas de leite cru licenciadas na Califórnia. Ao procurar novos provedores, foi contatado por Mark McAfee, paramédico que herdara a fazenda dos avós em Fresno. “Liguei para o James e disse, ‘Tenho duzentas e cinquenta vacas aqui, todas certificadas orgânicas ou em pastagens’, McAfee me disse. “Ele diz, ‘Chego ai em três horas’.” De acordo com McAfee, Stewart sozinho reconstruiu o mercado do leite cru no sul da Califórnia, e o introduziu ao nutricionista Aajonus Vonderplanitz, ator da série “General Hospital” que declara ter se curado de múltiplos cânceres ao ingerir uma dieta de carne, ovos e leite cru, restringindo a ingestão de água. Vonderplanitz, que chama sua abordagem radical de Dieta Primal, tornou-se investidor na fazenda e seus seguidores tornaram-se clientes de McAfee. Organic Pastures é hoje, pela estimativa de McAfee, a maior produtora de leite cru no mundo, com 430 vacas. Produz dois mil e quatrocentos galões (9 mil litros) de leite por dia, que vende por dezesseis dólares o galão ($4,00 o litro).

Num dia frio de novembro, fui até Organic Pastures com McAfee, homem enérgico e em bom estado físico, que vestia jaqueta grossa e bluejeans limpos. “Quando as pessoas começam a tomar leite cru, é como um despertar”, ele disse. “É um alimento do sistema de imunidade fenomenalmente transformador e altamente oprimido, ocultado, ignorado, odiado por processadores e os envolvidos com a estrutura da American Dairy Association (Sociedade americana de leite e derivados), ele disse.  “É uma guerra alimentícia massiva”.

Neste dia, McAfee aguardava o estado retirar o embargo de um mês ao seu leite. Pela segunda vez em cinco anos, Organic Pastures fora implicada numa epidemia de E. coli 0157:H7. Cinco crianças ficaram doentes; três foram hospitalizadas e tratadas por síndrome hemolítico-urêmica, que pode levar a falha dos rins.  Esta mesma estirpe foi encontrada na sua cocheira de bezerros, e ele tinha implantado novos sistemas de procedimentos seguros na fazenda. Mesmo assim, o embargo estava lhe custando $150.000,00 por semana, e ele sentia que o estado o estava “sangrando” intencionalmente. O recolhimento do produto tinha levado o preço do leite cru em algumas lojas a alcançar quarenta dólares o galão, com prioridade para as mães. “Vamos tentando manter a paz com todos nossos consumidores,” ele me contou.

McAfee entrou na fazenda e parou diante de uma vila de trailers bem zelados: um escritório, uma loja varejista, uma fábrica de laticínios, onde centenas de garrafas aguardavam ser enviadas a seus destinos. Conversou com um administrador, e disse sombrio, “Parece que não vamos ser liberados hoje”.  Dirigimos por uma estrada de terra, passando frente a casa de McAfee, uma enorme estrutura mediterrânea com uma piscina,  um par de cabras domesticados, e um hangar onde fica seu jatinho. No estábulo das vacas, uma fileira de vacas com úberes cheios estavam para ser ordenhadas. Os trabalhadores regavam as vacas com mangueiras—o esterco é uma das maiores fontes potenciais de agentes patogênicos—e então limpavam as tetas com iodo. O estado exige testes frequentes, e McAfee usa precauções caras para manter limpo o esterco.  Mas, ele disse, o esterco é portador de bactérias beneficiais encontradas no leite. Toda a comunidade pró pasteurização não entende isto de forma alguma”.

Em anos recentes, as pessoas estão tomando menos leite, ao invés de escolher alternativas como leite de soja, leite de amêndoas, leite de arroz entre outras. Ao mesmo tempo, os preços de ração e combustíveis escalaram, e muitos produtores de leite saíram do negócio. Tem havido uma leva de suicídios de produtores de leite, vários na Califórnia. Mas, desde a recolha do leite de McAfee em 2006 por motivos de E. coli, quando seis crianças adoeceram depois de tomar seus produtos, Organic Pastures vem crescendo continuamente. McAfee está se dando muito melhor do que a maioria das contrapartes que pasteurizam; a companhia, ele diz, vendou quase oito milhões de dólares de produtos de leite no último ano.

Muitos servidores públicos da área da saúde estão intrigados pelo fenômeno leite cru. A F.D.A. “aconselha fortemente contra o consumo de leite cru”, mantendo que não tem valor nutritivo vantajoso e é de alto risco à saude; John Sheeban, diretor da agência de segurança de alimentos lácteos, compara a “jogar roleta Russa com a saúde”. Gevork Kazanchyan, ex inspetor de saúde do município de Los Angeles que ensina sobre segurança e padrões sanitários de alimentos, me disse, “Sabemos que este alimento pode conter um risco possivelmente alterador de vida; é a gravidade do risco que dita a resposta a ela. Existe uma população especialmente  vulnerável e estes são os que são alimentados com leite cru. Temos esta coisa—pasteurização—que funciona. Vocês estão escolhendo dar a volta por cima. Não podemos dar carta branca”.

Mas abraçar a causa das bactérias faz parte da ética de leite cru. Para comprar na Rawesome, era preciso assinar um acordo dizendo que você tem preferência por comida com “micróbios, incluindo-se mas não limitados a salmonela, E. coli, capylobaceter, listeria, gangrena e parasitas” e gosta de seus ovos “não refrigerados e não lavados das galinhas e encobertos com fezes de bactérias e aves”. Membros não só rejeitavam padrões governamentais de segurança alimentícia por não serem aplicáveis a suas exigências nutricionais; as consideravam perigosas ao permitir que a comida fosse tratada com radiação e químicas antibacterianas. Numa invasão anterior na Rawesome em 2010, o California Department of Food and Agriculture pegou exemplares de queijos feitos por um laticínio em Misouri e testes indicaram a presença nestes de traços de listeria. “Dissemos a eles que jogamos fora, mas acho que não o fizemos”, um ex funcionário da U.S.D.A. que trabalhava na Rawesome me disse. “ A listeria não importa na verdade”.

O leite, seja humano ou de vaca, é o primeiro alimento ao qual a maioria dos humanos é exposto; é diferente de outros produtos tanto para consumidores, que o associam com nutrição básica, como reguladores, que vêem seu controle e vigilância como grande responsabilidade do governo.  Michele Ja-Russell, do Western Institute for Food Safety and Security na U.C. Davis, disse, “Da perspectiva da saúde pública, o leite entrou na  categoria de água. O suprimento de leite e água limpa é considerado pelo governo como parte fundamental de seu trabalho. Se o governo estivesse proibindo as pessoas de vender água impura, é difícil imaginar que haveria grande reação pública”. Mas Jay-Russel leva em conta a frustração de consumidores que não conseguem obter um produto que sentem necessitar. “O X do problema é: porque a escolha não pode ser de cada um?”

Numa manhã de inverno, com neblina a pairar sobre Los Angeles, Dairy Fairy, membro do Rawesome Club que na quieta assumiu as responsabilidades de aquisição após a detenção do Trio, entrou no seu carro rumo ao ponto de entregas. Toda semana, pega os pedidos do Rawesome de produtos lácteos, chucrute e carne crua, a maior parte transportada de fora do estado em espaços de caminhões alugados de uma grande operação de produtos. Para compensá-la pelo tempo, ela recebe uma caixa de produtos, que é significativo, já que ela trabalha freelance, e ela e o namorado gastam cerca de quinhentos dólares por semana em comida. (O cachorro come cru, também).

Desde agosto, o ponto de entregas tinha sido em parques públicos da cidade, mas Dairy Fairy decidiu que o risco era grande demais. Um dia, numa loja de conveniências, ela percebeu um homem vendendo carros no local. “Eu pensei, bem, é meio clandestino”, ela disse. “Então fui conversar com o dono. Ele disse, ‘Sou do Egito—eu amo leite cru! Eu faço uma troca de leite por estacionar o caminhão ali”.  A beleza do local é que caminhões chegam e se vão o dia todo; ninguém nota o caminhão de leite, sem marcas e discreto, estacionado num canto do local.

O caminhão estava esperando quando ela apareceu. Um jovem casal saiu de dentro; a mulher tinha corte de cabelo estilo duende e usava meias atléticas coloridas, até os joelhos. O homem ajudou Dairy Fairy retirar duas caixas do produto clandestino, manteiga de leite cru, feito do creme de uma empresa de leite desnatado de Nova Inglaterra, que vendia por $32,00 o kilo.  “Isto aqui é sagrado!” disse Dairy Fairy.  O produtor de manteiga, ela disse, exigia que eles se encontrassem em locais estranhos para fazer a troca: pagamento em dinheiro, à vista, por mercadoria.  Desta vez, tinha tido que encontrar com ele à beira de uma estrada em Pasadena.

Ao sol despontar pela neblina, antigos membros da Rawesome começaram a chegar: mulheres esguias em bicicletas, idosas com sacolas de viagem, uma contadora num BMW S.U.V. Vincent Gallo—óculos escuros rosa, camisa rústica de lenhador, mocassim—veio para pegar sua caixa, que incluía iogurte de cabra feito por alguém que trabalhava no Rawesome. “Subo as montanhas e pego o leite cru de cabra” o fazedor de iogurte disse. “ Tenho que assinar um documento dizendo que não vou levar ninguém até lá ou dizer quem são. Segredos guardados a 7 chaves ”.

Algumas semanas depois, Dairy Fairy me ligou. Ela teve uma conversa desconfortável com o produtor de manteiga, que tem um negócio de gourmet bem sucedido e não vê vantagem em expor seu envolvimento com o contrabando de leite. “Ele disse, ‘Você era a traficante de drogas! O traficante de drogas não fala com a mídia!”.

Para muitos no movimento pelo liberdade de alimentos, o leite cru é o teste. Dois anos atrás, uma organização sem fins lucrativos legal que ajuda produtores de leite cru moveu ação contra a F.D.A. para retirar a proibição de vendas interestaduais. (a ação foi descartada em março.) Em resposta, a F.D.A. afirmou, “ Não existe direito nenhum de consumir ou alimentar crianças com qualquer comida específica”.  Declarações destas alimentam a  ansiedade quanto às intenções do governo. “O leite cru é apenas simbólico desta atitude dos reguladores do governo de que são eles os que decidem quais alimentos podemos ter”,  disse David Gumpert, jornalista que advoga a favor do leite cru no seu blog, O paciente total.  “Existe uma tendência agora rumo a irradiação. Não é exigida, mas foi sancionada pela F.D.A.. O próximo passo pode ser a F.D.A. exigir que todo espinafre seja irradiado”.

A história de Stewart e seu clube foi tomada por blogueiros enraivecidos pelo que entendem por abuso de poder. Nos últimos anos, a F.D.A. invadiu fazendas Amish e Menoninitas que fornecem produtos de leite cru a clubes de alimentos fora do estado; no início deste ano, um fazendeiro em Pensilvânia teve que largar o negócio. A baixa de oficiais e policiais na loja Rawesome parecia o ponto alto de uma estratégia que entusiastas do leite cru acham ter como alvo acabar com o negócio de vez. Mike Adams, editor do Web site Natural News, comparou os agentes reguladores secretos com os Stasi da Alemanha Oriental, e alertou contra reprises. “Acredito que estamos próximos a entrar na idade de uma guerra armada entre produtores e a F.D.A.”, ele escreveu. “Eu aconselharia os agentes da F.D.A., que sem dúvida estão lendo isto, a levar muito a sério este prognóstico. Sua guerra contra o leite cru vale arriscar sua vida?”

Recentemente, o leite cru encontrou apoio político em lugares um tanto inesperados: entre Tea Partiers e libertários. Numa reunião na prefeitura de New Hampshire em dezembro, Ron Paul, que introduziu a legislação para derrubar a proibição federal de vendas interestaduais, recebeu uma leva de palmas quando disse, “Gostaria de restaurar seu direito de beber leite cru quando você quiser”.  No final de janeiro, James Stewart e um grupo de apoiadores se reuniram num hotel em Las Vegas para presenciar a Constitutional Sheriffs Convention (Convenção Constitucional de Delegados), um evento promovido por Richard Mack, ex delegado de Arizona, candidato ao Congresso pelo partido Republicano de Texas. Mack, que disse ter falado em “mais eventos Tea Party do que Sarah Palin”, conseguiu reunir mais de cem delegados, de todo o pais, que sentem que o governo federal está infringindo os direitos individuais.

Entre as estandes—Gun Owners of America, John Birch Society, Freeze Dry Guy —havia uma mesa empilhada de queijos de leite cru e produtos frescos. Os legumes tinham vindo de uma fazenda sustentável em Nevada que recentemente tornou-se querida do movimento pela liberdade dos alimentos, quando um inspetor de saúde apareceu num jantar “direto da fazenda à mesa” e fez o fazendeiro colocar água sanitária nos legumes, declarando que, devido a não poder determinar por quanto tempo haviam sido cortados, não eram próprios nem para porcos. Naquela noite, Stewart e os delegados iriam a um evento numa sorveteria, organizado por várias Raw Milk Freedom Riders—mães que praticam desobediência civil ao cruzar fronteiras estaduais com leite cru—mostrando produtos que haviam sido clandestinamente transportados da Califórnia.

Stewart estava festivo. O julgamento Rawesome andava lento, mas ele estava conhecendo pessoas que ele achava que poderiam ajudá-lo—delegados da Califórnia com atitudes semelhantes, e os Oath Keepers, um grupo de soldados, políciais e civis  cujo objetivo e preocupação é lembrar aos oficiais de que fizeram o juramento de seguir a Constituição, e devem cumprir com a palavra. Vários deles, usando camisetas pretas com a silueta de um soldado da guerra civil americana, segurando um mosquete, estavam postados à entrada, verificando credenciais.  “Eu sei porque o crackdown (batida) está acontecendo”, Stewart disse. “Porque nós estamos ganhando. Estão no modo freak-out, ansiosos, fora de si. Estão vendo a coisa pegar fogo em todos os cantos, e a única maneira de dar um basta é agir de forma nacional, criando medo e histeria”.

Um buffet for apresentado no meio da sala, com frios, salada de pasta e pacotes de fritas. Mack, figura imponente com botas de cowboy, camisa turquesa e gravata solta, fez um prato cheio.  “Cresci absolutamente odiando o leite”, ele me disse. “Eu engasgava nele! Agora quando tomo leite, talvez tenha gosto melhor para mim porque é leite da liberdade. Tem o sabor da rebeldia. Para mim, são os direitos civis. É Rosa Parks”.

Mack circulava pela estande da fazenda e perguntou a uma das mulheres ali se tinha comido. “Trouxemos nossa comida, pois isto é geneticamente modificado”, ela disse, apontando um saquinho de pipoca na mão dele. Alguém despejou leite num copo para Mack, e ele virou o rosto na direção do grupo de delegados—velhos colegas, em geral, com armas na cintura.  A turma do leite cru aplaudiu quando ele tomou um gole de leite e depois gritou, “Leite da liberdade! Leite da liberdade!”

O romantismo em torno do pequeno fazendeiro é algo poderoso no mercado de alimentos americano. Sharon Palmer, que virou fazendeira depois de uma carreira em negócios, procurou ligar sua Healthy Family Farms a esta história, descrevendo-a como “uma fazenda sustentável, baseada em pastagens” onde todos os animais—galinhas, patos, carneiros, vacas, porcos, alimentados com leite—são criados desde a nascença e “colhidos” a mão. Quando foi presa em agosto, novamente se posicionou dentro de uma narrativa mais ampla, dizendo ao jornal Ventura County Star, “Não é só sobre mim. Está acontecendo por todo o país. Estou muito muito esperançosa de que se torne aparente que isto é abuso governamental”.

Mas só porque uma fazenda é pequena não significa que o fazendeiro sempre toma boas decisões de como produzir o alimento que você consome. Uma comunidade que resiste a rotulações e inspeções por considerar isto intromissão governamental, se coloca à mercê de seus fornecedores.  E apesar de Rawesome ser apoiado pelos que por ele choram, por considerá-lo paradigma do consumismo intimo, iluminado, seus membros podem ter sabido menos sobre as origens dos seus alimentos do que pensavam.  Uns anos atrás, um grupo de dissidência, liderado por Aajonus Vonderplanitz, começou a questionar a integridade da Healthy Food Farms, alegando que o frango e os ovos eram terceirizados e continham altos níveis de mercúrio e sódio. (Palmer e Stewart admitiram ter brevemente vendido ovos de uma outra fazenda, mas questionam os testes laboratoriais).  Uma ex- funcionária da U.S.D.A, que trabalhou na Rawesome, disse que ficou furiosa ao descobrir que as galinhas que ela achava ser exclusivamente alimentadas em pastagens eram de fato suplementadas com milho. “Não existe nenhuma ração de milho que não seja GMO (geneticamente modificada)”, ela disse.

Depois da prisão do Trio Rawesome, as práticas de Palmer passaram a ser investigadas minuciosamente. A papelada para o acordo de fiança, assinada pelo  promotor local que levantou as queixas, informava que registros encontrados revelavam que ela estava “comprando milhares de dólares” de carne, frango e ovos de outros vendedores e revendendo nas feiras de fazendeiros e no Rawesome”. (Palmer mantém que a mercadoria era parte de outro negócio de fornecimento a restaurantes.)  Seu passado pré- agrário também entrou desconfortavelmente à vista. Alguns anos antes de iniciar a fazenda, enquanto trabalhava na empresa hipotecária do seu então marido, ela foi implicada numa fraude de hipoteca reversa levando a acusações criminais graves, incluindo uma alegando que ela havia defraudado uma mulher idosa de sua casa em Malibu. Depois de nove anos na cadeia do distrito, ela fez um plea bargain (negociação de confissão) e foi solta. “Quando cheguei em casa, só queria fazer algo bom pelas crianças e minha comunidade—por isso escolhi a agricultura”, Palmer me disse. “Olhe onde acabei: no meio da bagunça das vacas”.

Ao longo do inverno, Stewart continuou otimista—tinha os Oath Keepers do seu lado, e estava ansioso por reabrir Rawesome logo. Seu caso foi passado para um novo promotor, que ele esperava ser mais flexível. Mas ações adicionais poderiam estar pendentes; apesar de Stewart não ter sido acusado de violar a lei federal que proíbe o comércio interestadual, agentes tinham coletado evidências de sua relação com um fazendeiro Amish em Pensilvânia. Quando conversei com o agricultor—um homem empreendedor cuja operação supostamente arrecada cerca de dois milhões de dólares por ano—ele disse, “Estou vivendo pela fé em Deus que ele irá prover nossas necessidades, e que se a F.D.A. vier atrás de nós terá sido plano de Deus”.

Em março, Stewart apareceu diante do tribunal para procedimentos rotineiros, para marcar a data da primeira audiência. Vestia terno e estava animado com a  descoberta, informada pelos Oath Keepers, de que o oficial que o algemou em 3 de agosto não tinha, pelos registros, prestado juramento de ofício —potencialmente invalidando a detenção. Bloch e Palmer estavam presentes, também. Bloch, mulher elegante vestindo blusa de seda e calça estilizada, falou de modo sincero de suas experiências na cadeia de LA enquanto esperava ser liberada, dando a prostitutas e traficantes de drogas uma lição sobre os benefícios do leite cru. Palmer sentava-se quieta do lado de seu advogado. Vestia jeans lavanda e um suéter cinza e parecia cansada.

Haviam alguns apoiadores no tribunal, mas as dezenas de protestadores de camisa branca estavam ausentes.   O Trio Rawesome se postou diante do juiz, que os ordenou a voltar em meados de abril. Mas assim que o juiz terminou de falar quatro autoridades da Justiça chegaram por detrás e algemaram Stewart e Palmer. “O quê? O quê?“ disse Stewart, parecendo ter levado um baque e confuso, antes de ser levado embora.

No corredor, todos se uniram em torno do advogado de Bloch, que disse que a detenção tinha sido feita a partir de um novo mandado de Ventura County. A fiança  de Stewart tinha sido estabelecida a um milhão de dólares e de Palmer a dois milhões.  “É preciso  dois corpos mortos, no mínimo”, disse o advogado. Naquela manhã ele tinha vindo de uma audiência com o fundador do LA Bloods, que estava sendo julgado por acusações de tráfego de armas e foi solto por uma fiança de vinte mil dólares. “Para se ter ideia do terror que Stewart e Palmer estão levantando nesta nação, no caso de ADM (armas de destruição maciça) a fiança é de um milhão de dólares”, ele disse. “Dois milhões é assassinato com acusações de formação de quadrilha”.

As acusações, viu-se, eram financeiras, a partir de um alegado esquema de pagamento para a aquisição de Palmer da sua área agrícola em Santa Paula.  De acordo com documentos legais, ela e Stewart conspiraram para defraudar um banco, levantando dinheiro de investidores para a entrada, apresentado como sendo de Palmer. A queixa alega que Palmer e Steward engajaram um cúmplice como testa-de-ferro para o banco, por ter  bom perfil de crédito.  Os dois se pronunciaram inocentes das acusações.

Claro, ninguém na comunidade de leite cru viu tudo isto como um mero caso de empréstimo bancário. Apesar de Palmer e Stewart poderem eventualmente negociar uma redução na fiança e conseguirem ser soltos, o advogado de Palmer viu algo maior ainda por trás do esquema. “As acusações não levantam nada relacionado a alimentos produzidos na fazenda”, ele me disse. “Mas estou certo de que a operação tem tudo a ver com leite cru. A abordagem é consistente demais para o caso não ser visto como algo orquestrado”.

Traduzido por Robin Geld

Dana Goodyear, Dept. of Gastronomy, “Raw Deal,” The New Yorker, April 30, 2012, p. 32      

Source: http://www.newyorker.com/reporting/2012/04/30/120430fa_fact_goodyear

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